Reação

Ele (um homem mediano e mediano também de altura, roupas sociais um sapato bonito de couro e meias pretas, finas, com um relógio Mido e nó inglês na gravata e um anel no dedo, maçom, todos eles são maçons, um papo que não sei se sempre esteve ali e calvo e não gordo, mas não atlético, nada, uma negação e uma boa conta bancária e títulos, um mestre, um dono, um chefe, um patrão, um doutor, um coronel, um meu amigo, em outro dedo uma aliança e é claro, há vinte anos, há muitos anos, grosso, assertivo como todo homem deve ser, dono de si como todo homem deve ser, quem manda na casa sou eu como todo homem deve ser, por cima da minha autoridade, não, como todo homem deve ser, sua barba sempre bem feita, pilates, talvez um churrasco mensalmente, não pode abusar, discos e discos, amigos, não qualquer um, os pretos são ricos, os ricos são todos e a empregada escreve muito errado no whatsapp, venham rir, ele chama, venham rir, olha como ela escreve, olha, aplausos, é muito fácil odiar um homem desses, é muito fácil odiar um homem, é muito fácil odiar, a bichinha é burra, é por isso que é empregada e ele ri, todos riem, local de trabalho não é pra rir, ele aponta o horário, happy hour, como todo chefe, como todo coronel patrão meu amigo, o Mido balança no braço, ali brilhando como se fosse um pedaço de estrela, são todos estrelas esses homens e se eu me esforçasse quem sabe poderia me tornar como ele, me tornar como esse homem assertivo e barba feita e Mido no braço, Amanhã um Montblanc, a caneta é sempre Montblanc e meus filhos tem um cartão sem limites, sem limites e são boas crianças e por isso não mentem, mas ele não perceberia se mentissem, tem um grande nariz sob seus olhos e seus olhos são atentos demais, veem longe, mas jamais perto, aqui embaixo, perto do peito, é como um homem deve ser, e ele é rico como todo homem deve ser nesse país livre que todo homem quer habitar, um homem mediano e mediano também na altura, 1,68cm, 72 quilogramas, pedra nos rins, formado em administração pela federal no ano de 1975, gastrite é claro, dorme bem, não tem pesos na consciência, nunca roubou nem matou, um homem mediano que vive com mais de cinco mil reais por mês, com mais de sete mil, com quase dez mil, com muito dinheiro a não saber contar muito bem, mas eu não sei contar, ele sabe, ele controla, ele sabe de tudo com seus olhos que veem muito longe, no futuro, nas ações, no tesouro, no voo, a gaivota que voa, seus olhos de homem com mido e gravata e bourbon e títulos e uma boa esposa e bons filhos, eterno como todo homem pensar ser) não quis me pagar e eu atirei nas costas dele.

Acaba igual ao título de uma música

Quero que você desista mais uma vez. E enquanto isso, o chá está pronto. Quer biscoitos? Acho que não, você responde e eu sigo: quer uma torrada, então? Poxa, mas não precisa disso tudo, assim fico sem jeito, fica nada, sorrio, fico sim, você protesta e sorri, sorri mais uma vez, acho que não sei se a última, eu quero te matar antes que você cruze aquele umbral, mas você cruzará, cruzará não tão sorridente assim, um farelo do biscoito que você não aceitou, mas comeu, cruzará com uma mala pesada de quem não vai embora, mas de quem vai para longe de qualquer forma, você é um animal e vai para a selva, finalmente a selva, seu mundo com árvores e pedras ou rochas, bichos pequenos e gigantes e então você.

Pensei ter visto qualquer coisa de esperança naquele jogo do ferroviário contra o fortaleza, mas com aquele vampiro no poder, a merda da tendinite e todo o resto que me deixa puto da asa, não deu.

Quis te abraçar no terminal de ônibus. Não pude. Nós não nos abraçamos mais, existe essa cautela, esse novo muro (uma imagem que muitas pessoas usam para dizer que existe algo duro entre dois ou mais sujeitos), uma energia tenebrosa que não me deixa sequer erguer minha mão e segurar a tua: a mão na qual usava o anel que você me deu. O anel foi feito de um pedaço de osso seu, esse osso foi artificialmente cultivado até tornar-se próprio para a fabricação de um anel que coubesse no meu dedo, ora que surpresa, anelar. O ônibus chegou e você partiu. Entende a piada disso? O ônibus chega e você parte, mas na verdade não foi assim, você subiu, sentouse, me encarou pelo vidro, puxou o vidro, abriu a boca, não puxou a boca (isso seria estranho) mas passou a língua nos lábios e balbuciou sei lá o quê: o quê? Oi? Não, achei que você houvesse falado, não, eu não disse nada, achei que você é quem ia dizer alguma coisa, haha. O mais bizarro de tudo é que você sorri assim: haha.

Parte dois: algumas coisas não possuem exatamente um fim. Uma demonstração técnica aponta, por exemplo, pra um tipo de exposição do que pode ser feito com aquilo que se tem em mãos. Hércules não precisa ser engraçado ao fim do texto que digita, mas deve, sobretudo, digitar coisas que sejam inventivas enquanto forma e que apontem para um bom uso da língua, que não necessariamente precisa ser A Portuguesa, quer dizer, a língua portuguesa não é de longe a mais simples das línguas – mesmo sendo a mais bonita e mais gentil. Mas isso de beleza e gentileza só quem entende é quem nasce ouvindo escrevendo e falando, não é verdade? Pensar nisso, o texto segue sem um narrador concreto. Um “mano humano” para ser mais urbano? Isso é pura poesia, rapaz. Então, quem partiu foi hércules e quem ficou foi Adamastor e todo mundo me chamava Adamastor pitaco quando eu cursava o ensino médio e sempre fui meio careca, mas como bom apelido, as pessoas ignoram o todo e perseguem apenas uma coisa – o bobo dos apelidos é exatamente isso. E estou mais zangado que no início de tudo. Um técnico perguntaria qual a necessidade de tanta metalinguagem num texto tão miúdo, o narrador é um professor de português, um literato? Não sou. Na verdade só fiquei meio chateado e deprimido por conta disso, sabe, dessa partida inesperada desse cara com quem eu sonhei tanto tempo estar sempre perto e aqui não parece mais que faz sentido as coisas degringolaram pra caramba e fiquei sozinho mais uma vez e mais uma vez alguém partiu e me pergunto se é isso mesmo as pessoas chegam e partem como o diabo de um ônibus – o ferroviário perdeu o último jogo.

Parte três: Quero que você me desculpe pela violência, eu tentei nadar conta a maré, mas nadar contra a maré de gentileza e amor? Meus amigos todos estão escutando uns cds aí bem antigos, mas tudo bem, são bons cds mesmo que existam bons cds feitos ano passado. E eu zangado por estarem todos a ouvir as mesmas coisas, quando eu deveria estar zangado pelo fato de eu ser sempre tão agressivo e triste. Que é mais fácil lidar com a raiva do que com a tristeza.

Tenho medo que o ódio contamine os outros, então tento não odiar tanto. Rasguei um livro da Manuel Bandeira quando tinha 15 anos, o mafuá do malungo (será?). E descobri que metade da minha turma resolvera odiar o Manuel Bandeira também. Só que eu o adoro e nem sei mais o motivo de ter feito isso. Era mais fácil odiar. Fico pensando em quantas nuvens o focinho do seu avião perfurou. Você parece a minha prima Catalina, que voou comendo snickers e certamente ouvindo zeca pagodinho ou algo assim. Você deve ter voado ouvindo uma coisa bem legal, nada de amanhã será maior ou que dor que dor. Você chega em Bangladesh, ou em Ankara, ou em Varjota, ou em Manaus, ou em Santa Genebra. Você chega em algum lugar, tira um outro snickers da mochila e respira o ar profundamente. E já nem sabe se eu odeio ou se estou triste, e já não sabe qual foi mesmo o ônibus que você pegou até o aeroporto.

Eu sei.

Martinho

​Recebo pelo correio a fotografia de um homem em seu trabalho. Ele está com uma foice, o mato baixo está a seus pés. O sol muito forte brilha. Algumas coisas somem onde o branco estourou. É a imagem de uma pessoa que não vejo há muito tempo.
A primeira coisa que ele me disse foi: parece que se aproxima uma tempestade. Sabe disso pelo som do trovão. Estamos dentro de um quarto. A janelinha azul permite que vejamos o céu, mas, por alguma razão, não a abrimos jamais. A tempestade está próxima. Ele continua deitado. Penso que as roupas no varal irão ficar molhadas, então corro para o jardim. Um terrível trovão ecoa e volto assustado para o quarto. Ele me diz, então, que a tempestade está vindo. E completa: e eu te avisei. Houvesse ficado no quarto, certamente não teria me amedrontado com o trovão.
Ele parece bem, de toda forma. A foice em mãos, o sol manchando a terra e a pele dele. O mato caído. Não sabia que ele falava e, quando ele falou, não me assustei.
Seguro a fotografia. É uma fotografia como qualquer outra. Nenhum grande nome da história das imagens a notaria. É um homem em pé, sua, sorri, mato aos seus pés, foice, branco estoura, deve ser cerca de 11:40 da manhã, a luz muito dura, sertão central? Mas eu também entendo pouco de imagens. Ele entendia muito. De imagens, quero dizer. O que me intriga é: quem tirou a fotografia?
Então ele não está sozinho. Mas não poderia estar acompanhado. Tenho essa certeza. Talvez fosse uma câmera automática posta em um tripé. Um bom tripé sobre o solo jovem daquela região onde ele certamente estaria. O que cultiva?
Uma semana após a tempestade ele me mostrou uma coleção de imagens. Uma menina come pipoca. Um alemão sorri para um cachorro. O ventilador elétrico apontado para uma senhora muito gorda e muito bonita, que está sentada em uma cama enfeitada. Poderia ser minha avó. Outras imagens: um gif que mostra um gato entrando e saindo de um tronco velho. Ele entra pela esquerda e sai pela direita (minha esquerda, minha direita). E isso se repete mais oito vezes. Entra pela esquerda e sai pela direita. Ele então me diz que a imagem não existe. Que aquilo é apenas 0 e 1. Ele abre o computador portátil (no sentido de mostrar o que tem dentro, no hardware) e me mostra circuitos. Me diz: nós vivemos a partir disso. Nossos circuitos, isso aqui é a nossa vida. Não sabia que ele entendia disso, meu primo apenas disse: o nome dele é Martinho, veio prestar uma prova, ele pode passar uns dias aí?
De onde ele veio? Passou uns dois dias em silêncio, deitado. Até que disse que a tempestade se aproximava. Depois me mostrou fotografias, imagens de todo tipo, desmontou meu televisor e descobriu que a máquina estava mesmo completamente morta. Não chorei, mas fiquei um pouco zangado, a tv foi presente do meu pai. Martinho organizou os livros na estante.
Joguei a fotografia sobre a mesa. Meus papéis estão todos lá, a foto impressa então parece mais real. Mais sólida, é o que quero dizer. E lembro da voz de Martinho dizendo que capturou o alemão sorrindo para o cachorro, aquela cena é dele e em breve ela desaparecerá, será transformada em outras imagens, em outas coisas. Numa nova imagem, numa nova situação. O momento entre o alemão e o cachorro será tão banal, tão repetidamente visto, que se tornará 1. uma lembrança vaga, 2. uma informação fútil, 3. qualquer coisa menos aquele momento entre o homem e o animal. Concordo com ele. A imagem será tão exaurida, tão utilizada que, no final das contas, será outra coisa. Perderemos até o referencial inicial. Sim, ele me diz, mas você pode ficar com essa impressão. Eu tenho outra. Não é de se estranhar que ele tenha me enviado essa fotografia. Mas não quero lembrar de Martinho cortando mato, não quero banalizar essa imagem, não quero que ela signifique outra coisa. Mas a magia já entrou em ação.
A pergunta inicial que surgiu em minha mente foi sendo posta em segundo plano. Lembrei dele aqui, dos dias em que olhamos silenciosos para a janela azul, o vento batendo com força, os sons da chuva. A memória que ele talvez quisesse construir em mim havia sido esquecida. E agora tento fazer com que se erga mais uma vez em minha mente. Não tenho um número de telefone. Não tenho um endereço. A foto é tão desvinculada de uma origem quanto ele. O que fazer com aquela história? Um homem com uma foice. Um homem que ceifa o mato. O solo que em breve será revolvido. Desde que horas da manhã ele estaria ali, trabalhando como um homem do campo. Seria ele um homem do campo? Alguém apontaria o dedo para aquela fotografia e diria: eis um homem que acredita que nós partimos dos circuitos eletrônicos. Quem apertou o botão que registraria aquele momento? 10, nove, oito, ele corre, sete, seis, cinco, posiciona-se, quatro, três, dois, 1, 0 ouve-se um clic.
Gostaria de saber qual a câmera ele utilizou. Uma Canon? Não conheço muitos modelos. Ele coloca o cartão de memória em uma impressora, retira a fotografia e me envia. E agora aquela imagem é tátil, concreta. Mais concreta do que no momento em que foi capturada. No momento em que foi capturada, aquela imagem era apenas uma possibilidade. Agora ela é a única condição de existência daquele momento. Eu gostaria de saber quando foi tirada, gostaria de saber que tipo de vida Martinho estaria levando.
Escaneio, posto a foto em meu blog pessoal, rasgo a original. Jogo fora. Aquilo é só fragmento, mais uma vez. 0 e 1, finalmente, regressou ao lar aquela imagem.
Durante os próximos meses, recebo inúmeros negativos, que, com certa repulsa, jogo fora. E todos os dias sonho que estou preso em uma fotografia que registrou o exato momento em que soa uma trovão, meu rosto está apavorado e envergonhado: eu fui avisado daquilo. Mas, por algum motivo, quis enfrentar a tempestade.

ser isso que se quer ser exige muita surra

Eu também fui despachado. Em algum momento você percebe que falta algo. Na verdade, falta uma coisa substancial: não existe um chão nesse lugar onde você está deitado e coberto de merda. Você está coberto de merda e não sabe se é sua ou dos outros. Agora: quem iria até ali, até tão longe, só para jorrar aquele monte de sujeira em cima de você. Ao redor. Não há chão.

Se fosse um outro tipo de pessoa seria mais fácil, mas você não sabe beber nem fumar. Você não sabe sair pelas ruas arrancando as lâmpadas dos postes à pedradas, quebrar lâmpadas, ser um vândalo, dar na cara da polícia e apanhar também, ser isso que se quer ser exige muita surra, me disseram que para ser qualquer coisa eu deveria sofrer como essa coisa sofre. Sofrer como um homem e sofrer como uma mulher e sofrer como um bicho, sofrer como uma pedra eu queria ser uma pedra vocês podem perceber isso através do que ando sentindo: pouca coisa. Fora essa dor dos diabos nas costas, fiz muita força carregando um peso que não deveria carregar. E é claro, como todos os seres, nasci para amar e odiar e tenho amado e odiado, em algum momento eu parei de saber diferenciar as duas coisas,  de modo que beijo quem posso beijar e arranco a cabeça e chupo os ossos de quem posso: mas não posso, segundo a nossa constituição, não posso: chupar ossos de alguém, arrancar cabeças, depredar patrimônio público, ficar nu nas ruas do dionísio torres ou da barra do ceará, a lista é longa. E quem foi que desceu tão longe pra cagar ao meu redor, eu sinto esse cheiro de merda e não parece que quem fez isso fui eu.

Amanhece: eu também fui despachado. Labirinto existencial e vazio existencial qualquer objeto adjetivado assim existencial me entristece, não há água no garrafão, o garrafão lilás de 20 litros secou e é domingo e eu não sei surfar, não sei sequer nadar e tenho sede, caminho, desço a barão de studart, uma longa avenida da minha longa cidade e só quero me jogar embaixo de uma kombi ou de um desses carros novos, o renegado com um x na sinaleira. Desço a barão e tenho sede.

Tarde: o dia que começa com o pesadelo é só mais um dia quem me jogou nessa merda, fui eu quem desceu tão fundo nessa fossa, será que fui eu quem escavou, mais um dia descendo eu um sujeito vil e com técnica só dentro da técnica, me perdoa fernando pessoa, que mar absurdo de grande, é água pra limpar muita merda, é água que não acaba, por favor eu tenho sede e preciso de um banho.

Um onda quebra: pedrinhas que rolam sob meus pés e sobre eles, o mar girando as coisas, sal, sinto muito bem o cheiro de cada coisa. Estou sozinho e sou responsável por tudo o que vejo, do prédio em forma de pendrive à estátua da índia. O mar absurdo para lavar entre meus dedos, nunca tive frieira, sempre tive nojo do mar e de água doce, sempre achei sujo, um monte de água assim aberto aos céus, isso só poderia ser coisa muito suja, mas fui gostando cada vez mais de molhar os pés nessa água que vira espuma antes de voltar pra dentro de si: todo tipo de água faz uma volta onde quase desaparece para retornar pra dentro de si, e é claro que essa imagem só faz sentido pra mim, que não bebo nem fumo e não tomo remédios controlados, é muito engraçado, enquanto me desdobro em frente ao mar, uma tempestade começa a cair.

Uma tempestade cai e eu: subo por outra rua, vou lutando contra cada gota e esse dia é todo um processo de purificação, mesmo que a água que cai das nuvens de fortaleza seja meio imunda de poluentes, que desgraça é não ter ao menos uma sombrinha, guarda-chuva, um chapéu bem grande. E me sinto ainda mal, me sinto abalado, quer o mundo que eu não chegue em casa, quero eu chegar e me enrolar de novo em um lençol e assim ficar caído nesse abismo incontrolável, injustificável, eu tenho andado tão triste, senhor, já há tanto tempo, os carros estão com seus faróis ligados e não vejo nenhuma kombi ou coisa assim, desejaria até um fusca, um carro que significasse algo, mas apenas sedans ignorantes de mim transitam pelas ruas, cambaleio, literalmente cambaleio, a chuva engrossa e me estapeia, tropeço, meto o pé em uma boca de lobo, a carne cede, me distraio, largo a testa no chão, que dor, que merda, que chuva, que diabo de tanto sangue é esse, me levanto e a chuva vai me lavando, vai me molhando,  muita chuva, os faróis cada vez mais nervosos, ligeiros, eu estou tão triste e minha cabeça dói, minha perna dói tanto, a boca de lobo engole todo sangue que escorre de mim e não sangro direito, não parece real, cambaleio como um morto de sede, saí de casa por ter sede, o garrafão ainda vai estar vazio quando eu chegar em casa, quero me abrigar, preciso me abrigar, a chuva mais grossa da história da capital alencarina, a chuva menos delicada, quem desceu tão fundo para me agredir assim?

Procuro o chão. Não há chão. Quero me abrigar em um ponto de ônibus, mas alguém me empurra, me rechaçam, quero me abrigar, tenho frio e medo e uma tristeza, todos estão molhados, mas eu estou sujo. Estou sujo de água e merda, como se um cano houvesse explodido diante de mim e a cagece ainda não houvesse atendido ao meu chamado, quero me limpar e me secar, quero me molhar de algo limpo, puro, tirar essa casca. Não consigo me levantar. Estou sujo e caído, mas não no chão. Há muitas bocas de lobo sugando o ar, a água. Sugando a ocasional sujeira que se desprende de mim.

Eu estou tão triste, meu deus, cambaleio meio em quatro pernas, a boca de lobo bebendo meu sangue e a merda que escorre de mim. A noite não chega, mas a chuva cinza aumenta, viola. Quem desceu tão fundo para me agredir, meu deus? Não há chão, a merda está ao meu redor, não sob mim. Está em tudo e escorre comigo para a boca de lobo. Adormeço na rua, e, quando acordo, a tempestade piorou. Chove tudo o que chovia antes, também chovem pedaços de mim. Há tanto tempo que eu não me sentia tão triste, senhor, e essa chuva não quer passar. Cabeça e perna doem, meu endereço parece um sonho. Caio na via, já nem há carros. Ouço um farol ao longe, sinto o calor de alguma buzina. Espero que seja uma kombi. Que qualquer coisa me mate, senhor, menos um sedan. Deixo a cabeça pender e com os olhos muito abertos, espero.

O que eu vejo é apenas uma boca de lobo e a água que cai dentro dela sem parar sem parar sem parar.

O Dindo vai se foder bem menos, mas vai morrer mais cedo

Saiu do cinema, comeu um sanduíche e foi pra casa. Dindo encarava o Dimas na entrada da rua, presta atenção que isso vai dar em zoada. Ontem foi a festa de 12 anos do Dimas, o Dindo falou que Dandara era uma preta muito gostosa, foi aí que: Não vacila, não, seu safado, o Dimas gritava, sai fora daqui, sai! Dindo saiu rindo e dizendo, é preta mesmo e é muito gostosa! Eu, de longe, só observava, eu não me meto muito.

Uma rua, qualquer rua, tem umas casas numeradas, umas têm calçadas e outras não. A rua do Dimas tinha calçada. O Dindo ficou lá esperando e quando o Dimas dobrou a esquina começou a pilhéria: a verdade é que o Dindo é um vagabundo mesmo, malandro, não dá pra dialogar com gente assim. E aí, Dimas, tá com coragem?, gritou o Dindo, e aí o Dimas arregalou os olhos. Eu sei, a gente sabe, o Dindo deveria levar pelo menos um estilete no bolso, ele não joga limpo, não luta limpo, é um filho de bêbado mesmo. Canalha. Mas eu não me meto. Que é que tu quer, caralho? Ei, repete aí o que você falou ontem, quando me expulsou daquele teu parabéns vagabundo! Dimas não repetiu, foi correndo em direção ao Dindo. Isso vai dar em zoada, mas eu vim aqui só fazer um trabalho, quer dizer, não vou dar bandeira pra dois moleques. E a Dandara não é nem tão gostosa e nem tão negra, vi um filme que uma mocinha dizia que preto era cor de caneta. Caneta preta pra prestar vestibular, sabe? Negra, a Dandara era o que a gente diz que é pardo, mas o Dindo falava preta mais pra irritar, é que parece que o pai dela havia matado a esposa, o cara era loiro e a mulher amarelada, como que nascia uma menina escurinha daquele jeito?

Dimas e Dindo embolados no chão, os cachorros da vizinhança latindo, um sol de lascar e o problema é que o Dimas havia escolhido a sessão matinal. Poderia ter ido ver o filme de tarde, de noite, poderia ter comprado o bilhete pra ver um filme de terror, esses só começam lá pelas vinte e três horas, mas resolveu ir de manhã para o cinema, comprou um cigarro no caminho, tomou uma latinha de refrigerante de laranja, foi costurando o bairro inteiro até chegar ao cinema. E aí, nessa de costurar o bairro, o Dindo já sacava que ele iria voltar mais ao meio dia, ali um tanto antes de todo mundo voltar da escola. Na minha época existia um cara chamado de caça-gazeteiro, um sujeito que vivia de observar os alunos que faltavam deliberadamente às aulas. Uma vez um deles me pegou e eu, numa situação crítica, tive que deixar ele cheirar meu pescoço. Fiquei assustado e hoje em dia com certeza teria que fazer muito mais, com certeza me pediriam, me obrigariam a baixar as calças, hoje em dia parece que tudo é muito mais complicado. Ainda bem que não existem mais os caça-gazeteiros. Dimas deveria ter ido ao colégio, poderia ter se escondido no banheiro e fumado maconha até que o sino tocasse e ele pudesse sair com todos os seus colegas, mas preferiu ver um filme.

Dindo já puxou o estilete. Deve ter uns quinze anos, é menor que o Dimas, mas é ruim. Sou pequeno, mas sou ruim, já ouvi isso por aí. Você é grande, mas não é dois. Coisas que eu ouço com frequência. Olho para o portão. Ele se abre bem pouco. Um homem sai. É o pai do Dimas. Esse Dindo é atrevido pra cacete, procurou confusão na porta da casa do outro. É o que a gente chama de cachorro mesmo. Puxo a arma do cós da calça, não preciso mirar muito bem, o pai do Dimas é gordo. Ontem, no aniversário do filho, bebeu muito, comeu muito, eu poderia ter matado ele de qualquer forma. Mas tinha muita gente, muito menino, tinha a Dandara que é até bonita, mas também tinha o Dindo que resolveu fazer confusão e eu fiquei com um cagaço da porra de chamarem polícia, milícia ou patrão. Ficou tudo por isso mesmo e resolvi bater na casa do Dimas de manhã, antes que o moleque voltasse do colégio. E o Dimas é só oito anos mais novo que eu. Ainda vai se foder muito na vida. O Dindo vai se foder menos, mas vai morrer mais cedo. Se o Dimas não tivesse ido ver filme, não cruzaria com o Dindo nem comigo. E não iria ver o pai levando um tiro bem no meio da barriga, um tiro no ombro, um tiro no pé, esse foi ruim, não iria ouvir o tiro que dei pra cima, eu queria assustar. Mas não assustei.

O Dindo sabia que o Dimas estava no cinema. O Dimas costurou pelo bairro pra perder tempo, pra ganhar viagem. Os dois sabiam que pra cada rua tem três becos, cada beco tem um buraco e eu não sabia em qual me esconder, nunca corri de polícia, milícia nem patrão, corro de dois moleques, um bem sem futuro e o outro quase sem futuro. Quero me esconder, o tiro foi pra cima e não assustou, escutei aquele tréc que o estilete faz quando alguém joga a lâmina pra fora e o Dindo quer me cortar. O Dimas quer me cortar. Se a Dandara quisesse, também me cortaria, pois existem mais becos aqui, existem muitos buracos e não sei em qual me meter. O tiro que eu dei pra cima era pra assustar, mas perdi tempo e bala. Os meninos sabem só pelo som qual é o ferro que eu tenho aqui. E todo mundo nesse bairro sabe contar munição: uma hora alguém para de atirar, senta, recarrega e você sai correndo. No meu caso, eles só precisavam saber contar até seis. A chinela do Dindo tem um prego. Parece que cada ruído que o canalha faz é muito maior, muito mais sonoro que qualquer outra coisa. Vai se foder menos que o Dimas, mas vai viver menos.

Ele foi por ali, ele foi por ali. O cara matou meu pai! Eu sei, corre, animal, corre que ele não é daqui. Esse bicho não é daqui. O Dindo insiste que esse cara não é daqui, mas eu já vi o rosto antes. O nariz, os olhos. Todo mundo aqui é parecido, mas ele é outra coisa. Eu corro e meu pai morreu, papai morreu, eu sei, um tiro foi bem no meio da barriga, ele vai morrer, já deve ter morrido. Ontem foi meu parabéns de doze anos e o Dindo insultou a Dandara. A Dandara que é muito boa comigo, que uma vez perguntou da minha mãe e eu disse que não sabia, que talvez ela tivesse morrido igual à mãe dela. A Dandara quando ouviu isso riu e perguntou se eu queria pegar no peito dela, eu fiquei sem saber o que fazer, a verdade é que até agora, correndo atrás desse cara, eu não sei por qual motivo alguém iria querer pegar no peito da Dandara ou de qualquer outra pessoa. Eu finjo que sei, mas na verdade não sei.

Fui ao cinema sozinho, e parei em uma bodega pra comprar cigarro. Só tinha daquele último suspiro, é uma porcaria, queria o que tem cheiro bom, esse chama a atenção da galera, mas não tinha. Fumei só um e tossi. Eu não vejo graça em fumar, mas é bom. Parece que tô maior por dentro. Se eu tivesse ficado no colégio, com certeza não pegava aquele safado na minha porta. E o bicho ainda foi na minha porta arrumar confusão. Agora corre atrás desse cara, acho que ontem ele tava aqui. Não o Dindo, mas esse assassino. Meu pai deve ter feito uma merda grande, eu acho que sei o que foi, mas na verdade, não sei mesmo. Tudo o que eu acho, só acho vagamente. Aprendi que vagamente é quando a gente tem uma ideia por cima. Pensei que o colégio só servisse pra gente não ficar em casa, mas na verdade aprendi umas coisas. Aprendi que a gente pode se esconder no banheiro quando tá com medo, quando não tá com vontade. E tô com medo e com nenhuma vontade de correr, mas o Dindo correu. Tava quase me furando, mas agora corre atrás desse sujeito que matou meu pai. Nem sei se papai morreu, eu deveria ter chamado uma ambulância, o Samu, alguém. Mas tô correndo e tudo o que eu queria era um banheiro pra fazer a cabeça e chorar. Puta que o pariu, o Dindo corre rápido demais!

Não tem muito que fazer. Tem um barulho de sirene. É polícia, faz um piuí amedrontador. Não é aquela polícia, é de um outro tipo. É do tipo que a gente não consegue contar bala. É dum tipo que não atira na barriga nem no ombro e nem no pé. Com sorte, erram o meliante, miram no Dindo e acabou, tem flagrante, tá com arma branca. Sem sorte, tem eu aqui correndo com esse cano na mão, com essa arma que tem bala e pólvora, mas que eu preciso. Preciso, não sei se quero dizer isso assim em voz alta, preciso, sim, tenho medo, eu vi os olhos dos dois, e pelo menos o Dindo não ficou com medo. O tiro pra cima, o tiro pra cima foi pra amedrontar, mas não, ele enfiou a lâmina toda pra fora, já não queria mais cortar o Dimas. É estranho, mas não tem uma coisa como falar disso em voz alta, só falo comigo, mas é que só pensar parece alto demais. O Dimas deveria ter ido pra escola mesmo, eu aposto que o filme nem era bom assim. E quem sou eu que corro de dois moleques, uma arma na mão, o cagaço da polícia, a galera com a cabeça pra fora da janela, quase ninguém me conhece por aqui, mas alguém me conhece. Se eu vacilar, esse conhecido me vê. E aí, com ou sem cano, eu viro história.

Fui bater no portão dele mesmo. Fui, que eu não sou covarde. E não entendo a Dandara dar moral pra um menino de doze anos que parece que é viado. Não que eu não goste de viado, mas eles é que não gostam de mulher, não faz sentido a Dandara andar pra cima e pra baixo com o Dimas, moleque feio, não faz sentido nenhum. Aí a ideia era meter o estilete na cara dele, só pra ela ficar com vergonha de dizer que ficou com ele. Mas apareceu um figura e estraçalhou o pai do menino. E eu, fico como? Vou rasgar a cara de um menino sem mãe e sem pai? Eu que nem tenho um? E me deu uma raiva, o meliante deu um tiro pra cima e riu, ele riu e perdeu o sorriso assim que a bala saiu do cano, perdeu, olhou nos meus olhos e me viu com vontade de matar. A gente se resolve, eu nem ia cortar a cara do Dimas, no fim das contas eu não podia fazer isso com um menino que nem sabe o que falam dele por aí, parece que a mãe abandonou o pai, parece que a Dandara faz umas coisas esquisitas com ele, parece muita coisa. E ele não sabe, tá na cara que não sabe, eu fico mais é com pena. Fui bater no portão dele, parece que o Dimas não tinha só jeito de inocente, ele era inocente mesmo.

As sirenes e a chinela com um prego, eu pulo um muro e parece tudo igual, que lugar é esse, virou labirinto, tô preso e sendo perseguido por dois monstros pequenos, um menino, dois meninos, um deles é o diabo o tréc tréc da chinela são cascos, que aconteceu pra eu ficar assim? São os olhos. Os olhos do menino pareciam olhos de quem queria matar, mas na verdade, não: eram olhos de quem iria morrer. Dindo vai se foder bem menos que o Dimas, mas vai morrer mais cedo. Ele tá ali. Foi o mais novo quem me achou. Um dedo me aponta. Essa galera do Centro chega aqui e acha que tá em casa, a voz de uma menina qualquer. Não tem escrito na minha testa que eu sou do Centro. Alguém sabe quem eu sou e se sabe, sabe que eu tenho que levar o Dindo e o Dimas comigo. Quando eu acordei, era só um homem, era só um negócio, só uma parada que ganharam por fora. E agora isso. O mais novo me apontou o dedo, dobrei uma esquina e dei de cara com um beco que virava um buraco. Só uma reta, se pararem pra pedir clemência eu miro melhor, miro com mais amor. Só tenho um tiro pra cada, então tenho que matar com mais amor.

Você tava de tocaia, vagabundo? Tava de tocaia? Ouço a sirene. Tava de tocaia, vagabundo? Ouço a sirene, o fuzil tem quantas balas? Nunca parei pra contar, com vinte anos e eu vacilo assim? Tava de tocaia? O Dindo pergunta, parece uma polícia perguntando, olha no olho, quer morrer, quer morrer com muita vontade, o prego na chinela parece que achou um ponto bom na minha perna e dói. Ouço a sirene e ouço vozes, vozes graves, não é a polícia certa, é a polícia errada. Se o Dindo nascesse de novo, poderia ser daquela polícia e teria um fuzil, se com um estilete era o diabo, imagina aí o estrago com um fuzil, eu nem sei contar quantos estiletes vão num fuzil. Tava de tocaia, porra? As botas. Ele é do centro, a voz continua. É do centro. Esse povo do Centro acha que tá em casa, pra cada beco um buraco, pra cada buraco, um beco. Mirei com vontade, mas só o Dimas morreu. Ele não pediu clemência, me olhou com vontade de morrer também, me olhou com olho de quem não sabe. Como foi que ele chegou antes, se o Dindo corre tão rápido? Se o Dindo corre tão rápido, como foi que não me pegou por trás antes, como foi que não ouvi a chinela dele batendo duas vezes mais rápido atrás de mim? A bota pisa forte na entrada do beco, tava de tocaia, vagabundo, essa gente pensa que tá em casa. Nem tenho como mirar, a bota chuta pra longe o corpo do Dimas, um corpo que rola até a parede, só atrapalha o caminho, e os fuzis, não são poucos, são três, quatro, não consigo contar quantas balas podem sair daquelas bocas, os fuzis apontam alguma coisa, apontam pra alguém, pra mim ou para o Dindo, e a voz familiar confirma: é ele que matou o moleque, é ele que atirou no menino! Quem atirou no menino, solta o estilete, quem atirou no menino, tava de tocaia, vagabundo, olhos de quem quer matar e olhos de quem quer morrer, quem atirou no menino, quem matou o menino, porra, quem você pensa que é pra achar que tá em casa: eu atirei no menino, fui eu quem matou o menino.

A primeira bala rasga com muito carinho a cabeça do Dindo. Eu atirei no menino, ele morre dizendo, fui eu quem matou o menino, ele cai sussurrando. Eu levanto os braços pra cima, pedindo clemência, e essa é a deixa pra mirarem com mais amor, com mais cuidado. Quantos estiletes podem sair daqueles fuzis? Não sei contar, nunca aprendi a contar.

A nuvem em forma de baleia

Minha namorada disse que haviam colocado um sonda em mim. Sentia como se um bebê me chutasse a barriga. Jamais teria um bebê na barriga, mas imaginava que se tivesse, seria assim. Comia bastante, eu achei que fosse fome. Mas não era.

Observo os prédios da minha rua com certa frequência. Daqui de onde observo é tudo muito solitário. Vejo algumas empregadas colocando roupas nos varais, algumas meninas tirando fotos do céu e consigo ouvir os garotos jogando bola. Vez ou outra é o oposto, os meninos o céu e as meninas a bola. Quase sempre as empregadas as roupas, isso muda pouco. Geralmente é após tomar café que faço essas observações. Por isso a suspeita de úlcera. Minha namorada se enganou.

Os ets não querem conversa comigo.

Existe um vizinho que apenas cozinha vegetais e lava louças. Uma única vez vi uma mulher junto à pia, ele a abraçou por trás e ficaram parados por um tempo, eu era um intruso, a intimidade deles aqui nos vidros da minha janela a vibrar e vibrar, era triste, era um aconchego triste, saí da janela e prometi que jamais invadiria novamente qualquer intimidade que não fosse minha.

Finais de semana vou visitar meu pai em outra cidade. Ninguém sabe, mas fico muito deprimido vendo seus pássaros engaiolados, o cachorro que nunca passeia. Também fico triste quando meu pai grita ou ameaça. Uma figura que não é família, mas é, não sei, digo que é minha madrasta. Digo que meu pai e ela devem se resolver como adultos, mas os adultos, que adultos, os adultos são muitos. Eu não sei o que fazer e olho pras árvores e vejo formigas andando e penso que sou ainda uma criança. É muito difícil se posicionar nessa outra cidade. Tem dois de mim quando vou pra lá. Eu sou duas pessoas quebradas e é por isso que vejo o namoro da formiga com a planta ou o abraço dos meus vizinhos. É sem querer. Não queria ter visto.

Quando volto pra minha cidade, corro muito. Reparo nos detalhes das pessoas e quase ninguém sabe, reparo nas unhas dos pés e nas raízes dos cabelos. Se os dentes são claros ou escuros. Apenas pra prestar atenção em algo. Ligo para a minha namorada e ela me oferece colo e fico feliz. E deito ela no meu colo, na verdade deitamos de lado e abraçados e é nessa intimidade que eu me sinto bem. É a felicidade que acho possível, a delicada soneca da tarde, comer pão e bolo. E então corro.

Quando estou sozinho em casa leio e ouço algumas músicas. A barriga dói e paro um pouco para ver os prédios, o céu. Acho solitário. Ninguém me ouve e eu não ouço pessoa alguma. Acaricio a sonda, digo que está tudo bem para a minha barriga, tá tudo bem.

O vizinho dos vegetais vez ou outra aparece, lava um copo, bebe água e não me encara. Pode ser que seja um fantasma, ou eu posso ser o fantasma, não sei, deixo essa dúvida dançar um pouco na minha cabeça e observo quem tira fotos, se tira, do que tira. Dizem que a fotografia é a melhor forma e a mais comum de memória.

Uma menina aponta uma lente para uma nuvem em forma de baleia. É enorme. Que nuvem é essa? Nem parece real. É escura, pesada, agressiva. Minha barriga dói. Gentil, o vizinho enfileira os copos. São de um material brilhante. Parecem feitos de luz. Uma senhora estende um lençol, uma mancha pequena e amarelada. A baleia chora um pouco e a garoa faz um som de timlinlin. O vizinho me olha. Está assustado e parece que viu um fantasma. A menina se protege fechando os vidros da janela. Não há crianças jogando bola. O vizinho passa as mãos nos olhos e acena pra mim, repete isso duas vezes. Estou sangrando, deve ser a sonda saindo.

Vou para a outra cidade. No caminho sobem pastores. Pregam a palavra de jesus. O motorista ouve djavan. O amor é azulzinho. Minha namorada me manda uma mensagem. Em breve volto para Fortaleza, eu a tranquilizo. Vou só ver como as coisas estão. Abro as portas, umas gaiolas estão caídas. Não há sinal de gente. Vou a um dos quartos e, parado, o cachorro chora baixinho. Fica pateticamente olhando para a porta. Não abro. Vim dar tchau, mas tenho a certeza de que meu pai e minha madrasta não deixaram algum bilhete. Não era sonda, era câncer, mas papai jamais saberá.

Antes de sair, encaro a árvore. Uma lagarta suga a seiva com vontade. Isso vai matar a planta, tenho certeza, e a lagarta será uma borboleta, se sobreviver ao tempo. Fecho o portão com força, invadi outra intimidade. Caminho cinco metros e retorno. Arranco a lagarta da árvore, a engulo, que me coma também, que faça algo ou que não faça. E então vomito e choro e vomito e choro.

Mais uma vez em casa, seguro com força uma xícara vazia. Não é feita de luz. Não tem café e já não tomo café, se não a lagarta, aquele líquido preto me comeria, me comeu, não foram alienígenas. Me sinto mais fantasmagórico e a nuvem em forma de baleia é só uma memória que por mim não foi fotografada. Giro a xícara algumas vezes e ela é real assim como eu. Me aproximo devagar da janela, meu telefone toca em algum lugar muito distante. Encaro um lençol já seco e ameaçado pela chuva que em breve virá. É branco, sem manchas. Alguém perdeu a bola, a janela da menina que fotografou a baleia agora tem fumê. Talvez ela esteja lá, talvez me olhe. A xícara perde peso, a xícara não está lá. Aos pedaços, fica soando amarga no chão. Rapidamente lanço um olhar para a janela do vizinho dos legumes. Gostaria que ele estivesse lavando um de seus copos de luz. Sinto meu nariz molhado de novo e sei que é só um pouquinho de sangue. A garoa ainda não caiu e eu sorrio com meus dentes muito brancos. Aperto a ponte do meu nariz e lembro de algo. Que bobo que eu fui. Foi antes de ontem que tudo isso aconteceu.

Antes de ontem o meu vizinho se mudou. Nunca mais vi copos tão bonitos como aqueles.

O olho do ciclope

Olho o que se oferece. É todo um caminho cheio de coisas por capturar. Que são essas coisas e quais os motivos estarem lá a deitar-se pelo caminho? Ignoro qualquer resposta e aqui tenho uma frase de efeito: que humano conhece as respostas todas? Olho o que se oferece. Isso que aqui penso nasce assim, sem um propósito, vai ver minha mente me levará a lugares que desconheço, mas se estão lá, existem. É conceito já sabido por todos, o vampiro não é menos vampiro por não existir cá fora. Se dentro de nós existe, imagina-se um homem cheio de dentes, um homem todo dentes e é isso, eis o vampiro, o vampiro existe, é táctil, possível assim como o é o unicórnio, deus, polifemo. Os lugares imagináveis, logo, existem. Caminho. É quente como é a Fortaleza onde vivo. Tem ondas e buracos, é exatamente como a Fortaleza.

O dia anterior: Catalina me olha e diz que prefere não ter a criança agora. Catalina, a quem sempre chamo catita, agora não é uma menina. Não pode ser diminutivo, é quem diz o que quer e o que não quer. Em breve embarca para longe. Vai de avião para a triste américa. Vai sentada em uma grande cadeira comendo snickers, bebendo coca e ouvindo um cd da dupla Chitãozinho e Xororó. Catalina gosta de músicas assim, como as que nos colocam a chorar por amores, vai ouvindo durante o seu voo a voz sertaneja de quem sempre amou demais e por isso perdeu demais. Pergunto se é isso mesmo e ela me diz que sim, digo catita, então fica por isso mesmo, fica por isso mesmo ela responde, tentamos. Tentamos, deus e polifemo bem o sabem, tentamos. Seguro a cabeça do minotauro nas mãos, sinto os chifres longos dele. Catalina me dá um beijo e parte, não verei catita, não veremos catalina em lugar algum, nunca mais. Sai da história num sentido material, mas irá continuar aqui: o que percebia dela, o castanho dos olhos e o quente da pele e as mãos frias, quantos acordes para o perfume que ela usa? A porta fecha e sei que o som vem se arrastando até aqui, toca não ao mesmo tempo os meus ouvidos, é por isso que sei onde fica a porta, sei que é esta porta que se fecha e não uma outra, a porta do meu quarto, seria bom se fosse a porta do quarto, catalina já deitada na cama a dizer-me que trouxesse água ou biscoitos ou aquilo ou isso, catita dorme e sua boca se abre bem pouco, catita sonha. Por tudo o que houve e por tudo o que jamais será: fica catita enquadrada onde estão as certezas, o pai morto, a dislexia de Maní, meu coração onde deve estar, isto é, do lado esquerdo do peito.

O telefone toca e é noite. Estou dirigindo até aí, mas a padre valdevino está engarrafada. Tudo bem, eu conforto Maní, quando a valdevino não está engarrafada? Maní sorri. Desliga o telefone e só por assistir a um comercial na tv é que percebo: respeite as leis de trânsito. Contra a maioria das possibilidades, Maní me liga enquanto dirige e nunca percebi isso acontecer, Maní sai em 20 de novembro de 2000 da escola de padres e em 21 de março de 2001 já tem cadeira reservada na escola militar, onde se enrola com os números, mas jamais com as regras. Maní é um homem que segue as regras e sempre conversa nos olhando nos olhos. Um clipe da Madonna e então um clipe do Fela Kuti, estamos até que bem de músicas, o telefone toca e sei que não devo atender, atendo e é então que me começam os passeios por um caminho que não sei qual. Ela tinha as passagens nas mãos? Tinha. Deveria ter. Bom, então fica tranquilo que em dez minutos chego aí. Queria ter a certeza? Não, Astérion, a certeza eu tinha, mas não sabia se você também a possuía. Maní é bom amigo, mas nunca me deu mostras de estar a esse nível de dramaticidade. Fala como se alguém houvesse lhe escrito as linhas, mas não existem linhas, só a interminável parábola de carros.

Estou sentado. Não sabia se você também a possuía, me martelam essas palavras na cabeça, tomo um chá de erva doce, mas ainda as perguntas do Maní a correrem cá dentro, e pensar que ele viria aqui me confortar, não veio e nem virá, fica perdido pelo trânsito e já a filha pequena precisa dele, a mãe doente, o cachorro que mordeu o gato. Maní segue a regra básica da vida, a de multiplicar-se na terra e viver sereno na eternidade. Nem para cristo o tirariam, que esse aos mercadores chicoteia e morre virgem e na cruz. Fecho os olhos. É escuro quando fechamos os olhos, mas alguma luz nos chega, entretanto. Tateio o móvel ao meu lado, pego o que deveria ser o telefone e pressiono a última tecla. Rediscagem. Maní atende e peço um conselho. Diz: te ligo em breve.

Durmo sentado e quando acordo, estou novamente com a cabeça do minotauro nas mãos, sou um homem todo dentes, é claro que ainda não conheço meu caminho. Me faz falta dizer catita, vamos viajar hoje? Me faz falta também identificar o que se encontra aos meus pés, que são coisas que ainda não são. Objetos que foram, as lembranças das coisas que eram, mas lembranças que ficaram atravessadas pelo caminho, não faço sentido e não vejo como posso fazer.  É estranho, um espaço todo aberto diante de mim. Mundos que se oferecem, me sinto tentado. Disse uma vez ao Maní que tinha planos de ir cursar o mestrado na cidade natal de catita. Ele sorriu e respondeu que aos habitantes de Puebla mesmo a língua espanhola se aprendia fora dos prédios, vai fazer teu mestrado onde tu tens chance, homem, Fortaleza é a cidade infinita. A Maní não importam as inúmeras universidades de Puebla. Nem a mim me importava que Catalina estivesse de malas prontas para o sonho americano. Gostaria de ter as certezas que se formulam nas cabeças de gente como Catalina, gente como Maní. Olho o que se oferece. São lugares que desconheço, é a Fortaleza fria e organizada, é o avião que se distancia e o carro que não sai do lugar. São lugares que existem como existe agora catalina, imagens mentais, conceitos. Existem por imagináveis que são, existem por que teimo que existam. Tenho um telefone de catita, um número que sei que ela deveria atender. Vai descer do avião e ouvir minha voz e saberá que Puebla terá um novo habitante, vai pensar que não foi sábia a decisão que tomou, mas que foi irrevogável, que agora é só Catalina e não a catita, vai saber que estou num lugar completamente novo de existência, vai compreender que saiu de mim no momento exato, Astérion é novo homem, aceito esse caminho, tomo nas mãos essas coisas que ficam pelo chão, são minhas as quase memórias e os possíveis esquecimentos. Catalina vai pisar em solo estado unidense e vai ouvir primeiro a minha voz, vai querer cruzar a fronteira, vai querer ser cidadã mexicana ao menos uma última vez.

O telefone toca e meu mundo que não conheço desmorona. Atendo e sei que vou ouvir Maní. Astérion, andei pensando no que você me disse. E então, Maní, que é que há? Foi ideia de merda essa de pôr-se em Puebla, isto eu te disse desde a primeira vez, mas pior ainda foi a do bebê, não se faz um menino uma menina, o que seja, não se faz uma criança assim apenas para fortalecer um laço. Esquece tudo, rapaz. A Catalina tinha razão. Há silêncio das duas partes. Já não tenho a cabeça do monstro em minhas mãos, ela caiu no chão, se desfez, é apenas o indício de um chifre com olhos bovinos e alguns pelos. Aguardo na linha, não sei o que fazer ou o que dizer. Maní vai desligar a qualquer momento. Sei que o fará pela respiração que consigo ouvir. Antes de desligar, diz: até porque era minha a criança… e é esse o meu conselho.

Aguardo na linha e continuo aguardando. Ouço o som do telefone sendo posto no gancho. Aguardam comigo minhas coisas que ainda estão por vir, aqueles objetos que foram e nada mais são. Aguarda o vampiro e o deus e o unicórnio.  Estou no caminho das coisas que se oferecem novamente, mas não há nada lá. Não há nada a não ser eu. Eu e talvez uma dúvida, uma última frase. O avião de Catalina pousa e ela desce, leve e sem bagagens, sem conteúdo interno. Fly again with us, ela ouve, e descendo as escadas abre mais um pacote de snickers.

Interferência

Uma coisa tão pequena que poderia ter passado despercebida, olha só, toma nota, Ramon, estou me sentindo um pouco mal. Que houve, aí não só o Ramon mas muitos outros, que houve, perguntam, estou sentindo umas coisas, posso sentar, eles dizem que por favor, alguém traga água e pode ser meio empurrado, atropelado, tudo isso assim de repente, mas é que é no súbito que começam as histórias, mesmo que há muito engendradas. Ramon me diz que tem algo no meu olho e eu digo que espere, meu telefone celular vai tocar e vou saber de algo muito ruim, quer dizer, como é que fui ter essa percepção, como é que fui captar de tão longe uma tragédia, vão me ligar e dizer que algo muito ruim sucedeu, é isso, não é, deixe de bobagens, sim, eu consigo sentir e mais ainda eu consigo ver, eu sei que meu telefone vai tocar, aquela interferência nas caixas de som, é isso, estou sentindo essa exata sensação. O estranho é estar pensando tão profundamente nisto e ainda assim achar algum sentido, percebe, a introspecção não está acabando com a sensação, ela persiste, alguma coisa muito ruim irá acontecer ou já aconteceu, meu telefone não quer tocar mas já deveria estar tocando, o Ramon diz que vou ficando pálido e cada vez mais pálido até que amoleço, não me segure que eu não caio, se cair é por ter alguém para me segurar, não ouse, tire mesmo a mão de mim, por favor, não me botem nos braços não me deitem, não ousem, por favor.

O celular não tocou, fiquei feito besta olhando para a tela verde com pontos pretos. Não tocou, mas agora que estou deitado, que me colocaram nessa sala fria e cheia de branco, com sons de solas de borracha no chão encerado, sinto meu corpo muito leve. Sei que algo de ruim aconteceu, mas não foi comigo, não foi com um dos meus. Sob o sol latino, algum rapaz deveria saber que uma mulher chamada tereza jamais irá conseguir. Não sei o que é, não consigo imaginar sobre o que tereza coloca tanta força, quem é esse rapaz e por qual motivo quer tanto que tereza seja bem-sucedida, mas não será. Nem ela, nem ele. Captei a mensagem errada, não deveria ter vindo parar aqui, mas veio e sinto uma imensa tristeza pelos dois, por ele que não sei o nome e por ela que, sabendo, em três frases senti a necessidade de o citar. Quatro, agora, Tereza. Me levanto e sei que sou maior que tudo o que jamais aconteceu no planeta terra. É novo dia. Meu celular jamais irá tocar. De alguma maneira, estou completo.

Calculo a curva necessária para que ele me receba e não sei se me receberá, mas calculo essa curva. São padrões muito delicados, são imagens muito frágeis, preciso colocar tudo de mim nisto. Sinto que se errar agora, nunca mais terei êxito. Não, sei que se errar agora, acabou. Ontem mesmo, num passado remoto, ele estava vivo e agora não está mais, a vida é sempre assim, basta que exista para que surja a morte, quer dizer, a morte é que é assim, dependente da vida, que esta a si se basta. Então alinho colunas, digito números, minha mente inteira condensada em algoritmos, coisas que não entendo bem, durante toda a vida estudei os padrões errados, os de formação das paisagens, intemperismos, vai saber se no passado alguém saberia disso. Falo em voz alta, meu nome é tereza e sou a menina que você não viu correr, a moça de quem não teve preocupações, a mulher que jamais te fez orgulhar-se, e será que você se orgulharia, o orgulho é tão subjetivo, eu mesma não compreendo os meus filhos, os meus filhos mortos, eu mesma não me orgulharia daquilo que tive, do que tenho, que nunca terei. Meu nome é tereza e no fundo no fundo você saberá que eu sou:

Durmo e acordo e durmo e acordo e estou suado, o Ramon ontem me disse que de vez em quando havia alguma coisa que ele não saberia identificar em meus olhos e fui ao médico, fui ao tarólogo e ao vidente, ao padre ao psicólogo às amigas mais e menos íntimas, visitei minha mãe que me contou que quando menina costumava ouvir vozes e eu parei logo a conversa, mãe, não é esse o caso, o que sinto não é bem sentir, é mais perceber, eu sei que existe alguma coisa e algumas pessoas, mas não sei que coisa e pessoas, o que é esta situação. E já alguma vez, mãe, a senhora procurou ajuda? As vozes me disseram para não procurar, gargalha alto, eu também gargalho e é isso, vou para casa e não tem merda de padre nem olhar de médico que me salve. Em algum lugar, alguém se perdeu e posso conviver com isso, mas o que me intriga, o que me faz levantar suado e zangado é: essa pessoa pode conviver com isso? Jamais saberemos, é o que penso, jamais sentiremos o mesmo, jamais estaremos naquela situação, jamais serei a mulher que dará orgulho a um homem, jamais serei a pessoa que se orgulhará de si, quer dizer, que razões tenho mesmo eu de me orgulhar de mim? Me pergunto assim, se essa tereza fala com um amante, então de que tempo ela é, de que lugar ela vem que se permite usar esses tipos de expressões, o que comeria tereza, de qual água beberia, qual fruto teria ela roubado dos jardins de deus? A cada nova viagem, me sinto mais cansado, me sinto menos renovado. Estou completo e é isso que me enlouquece, antes eu era apenas eu, eu perdido em meu próprio abismo, mas sinto essa presença massiva, essa presença gigantesca que me diz que estou maior que tudo, não sou, mas estou e isso ainda vai dar-me dores de cabeça.

É dia e finalmente termino de catalogar cada ato, palavra e omissão. Cataloguei todo acerto e toda falha, minhas gotas de suor e meus poros, a data da menarca, o dia em que percebi que já estava antiga no mundo, que minha semente já não mais espalharia. Dediquei linhas para meus olhos e para meus dedos, para meus pelos de adulta e para meus fios de cabelo, para o branco absurdo de meus dentes e para coisas que você vai saber: minha vontade de andar nua em casa, eu não abro a porta sem antes limpar a maçaneta, gosto de manter meus cabelos soltos, meus dentes vão sempre na orelha direita dos homens e isso por eu ser canhota, nos tempos de ventiladores eles iam na velocidade mais forte e sempre preferi o escuro. Fui feliz durante os bombardeios, gostava dos tremores de terra e do som apocalíptico. Gostava de saber que alguém, por meio de uma criação minha, ia moldando a pele da terra, seria pintora se não me tivessem dado aquele almanaque do Júlio verne, sempre preferi a cor verde, mas depois de um tempo ela desapareceu e minha favorita tornou-se a cor marrom, que é a cor da terra, em todas as eras, com todos os fogos, com todas as bombas e homens, macacos, dinossauros, alienígenas, papai, o senhor vai saber da filha que nunca conheceu uma coisa: não mudará jamais a cor da terra, a terra será sempre da cor do primeiro barro com o qual deus moldou a primeira mulher. No fundo no fundo, você:

Me sinto mais constante. Sei quem sou e que não sou essa mulher. Tereza não sou eu, eu sou um homem, sou Levi, sou extrovertido e jamais me viram com um lápis na mão esquerda. Passeio mais pelo campo, sinto a necessidade, entretanto, de observar melhor as árvores, de saber como foram construídos os muros que envolvem as grandes casas, o tempo que passo com Ramon é perguntando coisas sobre a arquitetura e ele apenas respondendo como bom estudante que é e de vez em quando me dizendo que vez ou outra sente como se estivesse sendo observado por mim, pelos meus olhos, quer dizer, mas não exatamente por mim. Sugere então que eu tenha um duplo que habita dentro de minha cabeça, eu continuo, e não, claro que não, um duplo seu teria o seu mesmo olhar e não se esconderia, isso que você leva, agora eu acredito, é uma outra existência. Vai ver foi isso que te aconteceu, Alef, nasceu alguém em você naquele dia. Dou as mãos para meu amigo e ele sussurra apertando minha mão esquerda, meio triste, que agora só pode contar comigo, só posso contar com vocês, isto é, com você e esse seu olhar. Não importa muito a ele que sua namorada tenha fugido em um cruzeiro, o que importa mesmo é que ela sumiu sem dizer adeus, mas ainda se preocupou em dizer-lhe que era pouco capaz de responsabilidades, e talvez seja verdade, Ramon, você é meio merda às vezes.

É curioso como temos medo. Temos medo de fazer coisas que antigamente fazíamos com muita destreza. Medo de errar. Agora não envio cartas e sugestões para pessoas do passado. Você nunca foi alguém do passado, é alguém que, embora jamais vá estar comigo, pertence ao meu futuro. Serei amada e reconhecida? Você só saberá de mim através das memórias que coleto, desses dados que eu mesma criei. Terei caído no erro do narrador em primeira pessoa, é isso? Você me dirá que sou uma espécie de bentinho a dizer-lhe o que me convém ou não do que percebo como realidade? Não me dirá. Antes de eu ter nascido, você terá recebido esta carta. E saberá que tem uma filha tereza que viu o fim do mundo e que ela até teve alguma participação nisso, saberá que tereza jamais conheceu pai e mãe, saberá que tantas vezes tereza chorou por nunca ter sequer uma pista da mãe. Acredito que o eu que veio antes de mim, a tereza que já viveu esta situação, não teve sucesso. Acredito que ela quis muito que você dissesse à minha mãe que encobrisse menos os rastros, que fugisse menos de mim, mas a mensagem não alcançou você. Pai, eu tenho medo. Tenho medo de falhar como falharam suas outras filhas, as terezas do meu futuro. Gostaria que você recebesse essa mensagem. Não tenho como dizer qualquer coisa a qualquer um no futuro. Não há futuro, percebe? Não existe alguém no futuro. No fundo no fundo, você vai saber que sou tereza, sua filha, assim que receber essa mensagem.

Percebo que estou flutuando. Já não me acontecia há um bom tempo, são coisas do passado, coisas de outras histórias. Meu celular toca, é o alarme e caio. Minha cama me recebe, tudo fica extremamente quente. Então me levanto, hoje é um outro dia. Corro para não perder o ônibus, corro para não perder a hora, mas não levo relógios e estou leve, sim, é isso, Ramon, você sabia que o mundo vai acabar? Vai acabar e não precisamos ter pressa, as mensagens enviadas simplesmente vão voltar no tempo, como aquela que eu recebi. Ramon me diz que seria interessante se as mensagens funcionassem normalmente no presente, que não se importa com o futuro, não entende o que é o futuro, não quer saber do futuro. Você tem estado amargo desde que Letícia te deixou, e ele diz que não é verdade, está zangado desde que letícia sumiu no mundo, não deixa rastros, não dá notícias. Repete o que você disse. Estou zangado com a letícia, é isso. Não, Ramon, a letícia foi pra onde, quando? Só sumiu, perdi ela no mapa, não sei o que faz nem o que fará, letícia é passado agora, ela e todo aquele assunto de eu não me dar com responsabilidades, que ela sabe de responsabilidade? Ramon, eu digo, acho que preciso te contar uma história, e ele pergunta se é uma história boa, que está cansado de histórias de coisas ruins, de fins, de sumiços. É uma história sobre isso tudo, eu afirmo, e agora sei o motivo de meu celular não ter tocado. Você é um irresponsável, Ramon, e nós já tivemos essa conversa antes, mas vai parecer que é a primeira vez. Não entendo, mas se é isso que você quer, Alef, então vamos nos sentar. Sim, precisamos nos sentar, é muito importante. Depois desses dias de olhares estranhos e mensagens perdidas, percebi algo, você também vai precisar perceber. Diz logo, atalha, homem. Não há um atalho para isso, você precisa saber, você precisa saber!

Ramon me olha transtornado e eu já não sou mais eu, meu olhar já não esconde algo, mas mostra. Tem um mulher no seu olho, no fundo do seu olho, bem no fundo, Alef. Olha melhor, eu digo, olha mais perto. Ele observa, observa, observa. No fundo no fundo, você vai saber. Ramon pergunta algo e permanece sem resposta. Não sei o que ele me diz, mas parece chorar. Pisco infinitas vezes e também caio no choro, reconheço aquela expressão, reconheço Ramon como reconheço tereza. São olhos de quem viu o fim do mundo, eu penso, mas nunca saberei. Nunca saberei sobre algo que jamais pude experimentar. Vou para casa e durmo. Sem sonhos, sem suor, levito novamente. Alguma coisa ou alguém, algum lugar, algum momento, algo abandonou meu corpo, finalmente me sinto faltando, sinto que perdi pedaços. Mas não acordo. 

Dor nas pernas

Madalena precisa respirar. Suas pernas doem, seus olhos doem, tudo ali parece doer. Dói tudo, de verdade. Madalena agarra a caneca muito quente e se sente um pouco feliz, sente-se mais menina, sente um vento meio brisa e meio ventania. Regressa ao controle. Tudo dói, mas agora é ela quem manda nessa dor. O ventilador sopra fraco e faz barulho de trovão, é o tufão xx8 turbo. A mãe havia indicado um ventilador confiável da arno, mas ela preferira se rebelar. Cortou os cabelos, também. Parecia uma atriz francesa da qual ela não lembrava o nome – percebeu que não memorizava nomes de atrizes. Tudo bem, a mãe chega cá e diz que havia me alertado e vou eu ficar com uma cara meio de raiva e um tanto de choro, uma partezinha de preguiça por estar tendo novamente a mesma conversa com a mesma pessoa. O problema agora era a falta de ar. Merda de cidade quente. A falta de ar. Abriu firme as janelas. Usualmente não esbravejava ou não usava palavras como “merda”, mas estava cansada. As pernas doloridas. Merda de ar quente entrando pelas cortinas de madeira, fuligem do centro da cidade, nuvens azuis e a porcaria dos pássaros cantando. Madalena tem uma bola no meio do peito. Quer estourar essa bola, cuspir sangue, raiva, tristeza, cuspir alguma coisa. Levanta, vai ao banheiro, urina, sente aquele líquido quente indo embora. É tudo muito quente, que loucura. Observa um pelo encravado na coxa direita. Quer arrancar aquilo fora, quer ver se nasce novamente, mas sem pelos encravados. Pensa na frase que acabara de formular. Fica parecendo que eu quero arrancar o pelo fora e que quero vê-lo renascer, acho. Sai do banheiro com a impressão de estar sendo vigiada. Não está. Madalena jamais será vigiada, a madalena morre logo, reparem, ela vai sair do prédio onde trabalha e dar de cara com seus assassinos. Mas por enquanto: sara, mulher, cuida de falar pra arrumarem essa merda, esse ventilador comprei pro meu quarto, esse escritório é grande, alguém arruma esse condicionador de ar, cadê o salomão? Salomão, fala com o David, manda vir um técnico. Entra no elevador, olha para a câmera. Do outro lado o rapaz das câmeras dorme. Parece a bíblia, ela fala, uma senhora que entrou no sexto andar pergunta: o quê? Meu setor, sara, madalena, salomão, david. Ah. A conversa morre. Madalena está ainda com calor. O problema reside no tanto que madalena não faz. Queria ser mais que uma assalariada? Não, está bem assim, mas madalena está cansada. Quer férias? Talvez uns dias. Sai do elevador, logo morrerá, mas não sabe disso e olha uma mensagem no celular, chamadas perdidas, anos 2000, jeans um pouco rasgado, toques polifônicos. Madalena, não saia do prédio, tem alguma coisa acontecendo. Mãe, tudo bem, eu chego em breve em casa, a gente conversa. Madalena, me ouve, e aí madalena desliga o celular, está cansada de falar sempre da mesma coisa, abre a porta, vê o brilho de faróis, sente um vento frio e anormal, essa época do ano, essa parte do dia, essa minha roupa, que frio, que frio, que frio. Vê olhos imensos. Sente uma mão percorrendo seu corpo, sabe que a mãe estava certa e fica daquele jeito, meio triste, um tanto zangada, parte lágrimas. A bola no meio do peito quer estourar, ela quer gritar. Merda, ela diz bem alto, merda, merda! Uma hora é frio e a outra calor, esqueci o ventilador lá em cima, a senhora está satisfeita, satisfeita?!
Madalena cai devagar pro lado esquerdo, seu corpo fica mole, então endurece. O cabelo é curto, mas a franja tapa um de seus olhos. O que consegue ver é o pelo encravado na perna direita. Queria renascer sem pelos encravados. Talvez férias. Odeia admitir que a mãe tem razão. O que quer que estivesse acontecendo, aconteceu. Dorme e não sente frio nem calor. Finalmente um clima agradável.

A estátua curiosa de algum animal

Que é isso, perguntou o Ian. Respondi só que não sabia, eu não sei, já estava aí quando cheguei. Parece um cachorro, né? Sim, parece um cachorro. Ninguém sabia bem, mas não era um cachorro. Ian morou cerca de dois anos comigo, mas então conheceu uma artesã(?) húngara (?) e foi-se embora com ela e com o não-sabemos-o-que-é. Me ligou afobado numa madrugada dessas, eu busquei uma garrafa de café, mas só achei chá de hortelã.
Tomei assim mesmo, era difícil ouvir Ian sem algo quente para beber.
A húngara havia enfiado uma garrafa quebrada na barriga do Ian. Foi assim: beberam, se amaram, e então a húngara viu uma tatuagem dele pela primeira vez. Haviam transado pelo menos 200 vezes enquanto ela fazia a residência artística aqui, mas apenas lá é que havia se dado conta da terrível frase nas costelas do Ian. Iniciaram uma briga, onde é que vocês estão, Ian falou coisas pesadas pra ela, no momento estávamos em Berlim, Tita (a húngara, lembrei o nome) zangou-se ainda mais, disse que iria sair para fumar. Você nem fuma: as mãos da artesã apenas deslizaram pelo ar, agarraram uma garrafa ainda lacrada e acertaram o fundo na parede.
Agora imagine o quadro, Tita parada e toda suja de pequenos cacos de vidro, os cabelos com respingos de odor alcoólico. Ela olhava fixamente para Ian, eu nem saberia o que fazer, ela baixou a mão, parece que acabou, ela grita e pula, a garrafa entra até que gentil, Ian cai no chão, e foi por isso que eu te liguei.
Fiz café enquanto ouvia.
Ian não morreu, só cortou a barriga. Foi superficial.
Acordei tarde no outro dia. Ele viria me ver. Queria me olhar nos olhos e saber que eu ainda estava vivo. Perguntou se eu gostava do natal. O natal é como a chuva, uma pedra, uma flor, um dia a mais. O natal existe, não é uma questão de gostar. É claro que é, ele diz bem baixo, mas não quer discutir sobre isso. Quer me ouvir agora, mas não sabe o que quer ouvir de mim. O natal existe, é irrelevante gostar ou não. Ontem eu peguei um ônibus e fiquei preso no trânsito. Via os reflexos das luzes do viaduto no vidro da janela ao lado da minha cadeira. O ar parecia irregular, nuvens cinzas, quase noite, mas ainda um pouco, quase nada, de sol. Atravesso a avenida principal. Um senhor tira fotografias da árvore de natal na praça portugal. Muito brilho. Muita luz e a cidade inteira nem parece mais real. Falta consistência. É noite, agora. Ian, como que eu posso te dizer isso, não sei se existe mais lugar pra alguém como você por aqui. Como assim? Sua voz parece mais distante, estavam em berlim? Estavam em algum lugar muito distante e muito brilhante, você não conhece mais esse lugar. E nada por aqui mudou, mas parece que há algo: entramos em um outro mundo. E se ontem eu parasse para analisar, não sei se teria sucesso, uma introspecção sobre meu estado mental seria falha, pois esse estado era, é, por excelência, atual. E se eu pensasse nele, entenderia que ele estava agora isolado no passado. A atualidade é preocupante por ser Intangível. Eu observo as ondas. O ônibus percorre o mesmo trajeto de sempre, a praça, a avenida infinita, o calçadão da praia. Ian boceja, aqui há luz do sol, mas sinto o sono como se estivesse aí. Dorme, Ian. Eu não durmo logo e acordo um pouco tarde, fico pensando nas memórias, na ideia fracassada de que possa existir um lugar como uma gaveta em nossas cabeças onde a memória existe. Onde jogamos tudo e esquecemos. Fosse assim, seria mais fácil definir a memória como o lugar do esquecimento. Essas idéias não são minhas. As vi por aí em algum lugar, em alguma aula. Aulas nas quais estive dormindo, e agora, desperto, acredito estar aberto à epifanias. Não estou. Meu último contato com o Ian foi em dezembro de 2013. Parecia mais jovem. Eu, não. Ele disse algo sobre minha aparência: a percepção que eu tenho de ti é a de que você saiu de uma doença brava. Eu entrei, Ian. Ele não sorri, mas não chora. Me abraça. Como é o natal pra quem tem câncer num estágio como o seu?
Depois disso Ian viajou novamente e casou-se com uma moça francesa que tinha rosto de alemã, mas o que é um rosto de alemã, senão um rosto europeu – e a França fica lá de qualquer forma, estão todos em família. Perdi o rastro dele. Não lembro o que ia fazer naquela manhã após o telefonema do meu amigo. Lembro bem daquela madrugada, lembro bem de sentir as dores na barriga, lembro da decepção de voltar de berlim, lembro de tirar fotos da árvore, lembro de andar de ônibus pela cidade. Mas realmente não lembro do que estive fazendo durante um dia inteiro. Talvez peguei outro ônibus, fiz outra viagem, esperei o telefone tocar mais uma vez. O natal é o natal, Ian. Não importa muito se gostamos ou não, ele existe. Mas você não faz um juízo sobre o natal? Não. Ele está aí, é mais um dia. Acho que gosto dos dias, então gosto do natal como um dia. Mas o natal é uma data. É como a árvore de natal. Não é só uma árvore, é outra coisa. Então árvore de natal e natal são coisas parecidas? Eu não sei, mas você tem que gostar ou não, sim ou não, entende? Não sei se eu entendo, Ian. Não tive mais notícias da Tita. Ela sumiu em berlim. Isso é bom, não é? Não sei, Ian, mas só você pode dizer se sim ou se não. Talvez a Tita seja como o natal pra você, amigo. Você não sabe explicar? Não: a Tita é um dia, ela existe, indiferente de eu gostar ou não. E ela sumiu. Como é o natal pra quem tem uma doença como a sua? A barriga dói, eu sinto o cheiro de álcool com frequência, mas os cortes são gentis. Tira uma foto da árvore da praça portugal pra mim? Eu só chego no início de janeiro.